
Deixou sua terra natal aos 15 anos de idade, passando por
muitos lugares até chegar ao Acre, Também trabalhou como funcionário na
Comissão de Limites na delimitação da fronteira do Acre com a Bolívia e o Peru.
E foi nesta época que conheceu a ayahuasca, bebida ingerida em rituais
indígenas deixada pelos incas e usada por grande parte da população cabocla da
região Amazônica.
Foi na cidade de Cobija, na Bolívia, que conheceu os irmãos
Antônio Costa e André Costa que, por coincidência, eram seus conterrâneos.
Estes lhe falaram pela primeira vez da bebida, que haviam conhecido por
intermédio de um caboclo peruano de nome D. Crescêncio Pisango, também
conhecido por Huascar.
Huascar era um antigo rei inca que passava seus
conhecimentos para Pisango. Convidaram então o Mestre para participar de um
ritual com ayahuasca.
De primeiro o Mestre não aceitou, mas depois pensou e disse:
"Eu vou. Se for uma coisa boa vou levar pro meu Brasil, pois de coisa ruim
o meu Brasil já está cheio". Da primeira e segunda vez que tomou a bebida
nada sentiu, só na terceira é que chegaram as "mirações". Estava
sentado numa roda de 12 pessoas quando D. Pisango se aproximou e "entrou"
na cuia grande onde era servida a ayahuasca, sendo percebido apenas pelo
Mestre. O caboclo pediu que ele convidasse o grupo a olhar dentro da cuia e que
dissessem o que estavam vendo. Responderam que viam apenas a bebida. Então o
caboclo Pisango explicou ao Mestre Irineu que só ele tinha condições de
trabalhar com aquela bebida e que ninguém mais conseguia ver o que ele via com
a ayahuasca.
Numa outra noite voltaram a tomar a infusão. Desta vez só os
dois, Antônio, que estava no quarto, e o Mestre na sala da casa onde realizavam
a sessão. Foi quando Antônio chamou pelo Mestre, que olhava encantado para a
lua, e disse:
- Raimundo, aqui tem uma senhora chamada Clara que quer
falar com você.
- Por que ela não fala contigo mesmo?
- Não sei não, mas diz ter te acompanhado desde o Maranhão.
Ela tem uma laranja na cabeça para lhe entregar. Fala que vai te procurar na
próxima sessão.
E assim foi. O Mestre numa ansiedade danada aguardava por
aquele dia. Era uma quarta-feira duma noite linda de luar. O Mestre se deitou
na rede de modo a apreciar a lua e, pouco a pouco, a "força" da
ayahuasca foi chegando, intensificando as mirações e, neste momento, é que viu
a lua se aproximando pra bem pertinho dele. (Esta miração, mais tarde veio
inspirá-lo a receber, do astral seu primeiro hino, "Lua Branca"). A
Senhora sentada ao centro da lua com uma águia na cabeça em ponto de voar lhe
disse:
- Pra mim é uma Deusa.
- Tu tens coragem de me chamar de Satanás?
- Ave Maria, minha Senhora, de jeito nenhum.
- Você está pensando que sou uma princesa, mas não, eu sou a
Rainha Universal.
- Tu achas que o que tu estás vendo agora alguém já viu?
- Acho que sim minha senhora (o Mestre julgava que outros
tantos que já haviam bebido a ayahuasca também já podiam ter tido aquela
visão).
- Tu estás enganado. O que vês agora, ninguém jamais viu, só
tu. Eu vou te entregar este mundo para tu governar, mas isso não é agora,
primeiro tens que te preparar. Agora que tu já é homem, tu vais trabalhar e
vais ficar com teu cabresto assim bem curtinho. Vais ter uma preparação para
ver se tu tens merecer verdadeiramente. Tu vais passar oito dias comendo só
macaxeira (mandioca) cozida e insossa, com água e mais nada, nem ver e nem
ouvir mulher alguma.
O Mestre, no dia seguinte, se retirou para a mata com o propósito
de cumprir as ordens da Rainha. Conta-se que no quarto dia ele foi tentado com
várias visões com intenção de lhe amedrontar. Os paus na sua frente criavam
vida, parecia que estavam todos rindo dele, caboclinhos surgiam de todos os
lados, fazendo contato com os animais que chegavam bem próximo. Com sua
espingarda dava tiros para o alto, pois os estampidos o confortavam naquela
situação. (Até hoje, nos trabalhos feitos na Doutrina do Santo Daime, se usa
soltar foguetes durante a sessão espiritual para que seja lembrada aquela
passagem da vida do Mestre Irineu).
Outro fato interessante que se conta é que, certo dia,
Antonio Costa, estava em casa preparando a mandioca insossa do amigo quando
pensou em botar um pouquinho de sal, mas imediatamente mudou de idéia e quando,
mais tarde, o Mestre voltou das matas disse ao companheiro que viu que o outro
ia colocando sal na macaxeira mas resolveu não por. Antônio se espantou com o
amigo:
- Mas rapaz, como é que tu fez pra saber? Então já sei que
tu tá aprendendo.
No oitavo dia de iniciação nas matas, a Rainha voltou a
aparecer para o Mestre e lhe entregou a laranja como símbolo do globo
universal. Ele pediu que o fizesse um curador e ela respondeu:
- Já está feito e tudo está em tuas mãos.
Também o advertiu de que teria muito trabalho com aquela
missão e que nada poderia tirar em proveito próprio. (Assim como hoje o Daime
não pode ser comercializado, pois desta forma estaríamos em desobediência com
as ordens da Rainha).
Na verdade, logo o Mestre entendeu que aquela senhora era a
Virgem Mãe Santíssima, a Virgem da Conceição, e que tudo aquilo que ele havia
ouvido e visto não eram suficientes para ele ser. Ele havia recebido sim aquela
missão e a partir daí ele tinha que dar prova e se fazer ser.
Durante alguns anos, nosso Mestre percorreu caminhos
espirituais difíceis entre a dúvida e a certeza, a verdade e a mentira, pois
quem anda nesta estrada sabe que uma linha muito fina separa estes princípios,
o que é certo do que é errado. Mas a Virgem Soberana continuou a aparecer
muitas outras vezes para o Mestre lhe dando força, conforto e fé, e numa destas
aparições foi revelado ao Mestre o nome da bebida.
O verbo "dar" originou a palavra
"Daime". Em alguns hinos da Doutrina se encontram as expressões
"dai-me amor", "dai-me fé", "dai-me cura", pois
quem toma Daime deve estar pronto a receber as dádivas vindas de Deus, contidas
nesta bebida sagrada.
Também recebeu da Virgem o título de Chefe Império Juramidam
e os fundamentos do ritual do Santo Daime. A Mãe Divina o instruiu a cantar
hinos que iria receber do Céu, que seriam o testamento de sua missão e estariam
reunidos em um hinário ao qual ele chamou "O Cruzeiro". Mas o Mestre
era um homem muito simples e humilde e não se achava capaz de cantar. Até o dia
em que a Rainha da Floresta lhe disse:
- Olha, vou te dar uns hinos e tu vais deixar de assobiar
pra aprender a cantar.
- Ah! Faça isso não minha Senhora, que eu não canto nada.
- Mas eu ensino! Afirmou ela.
E como o Mestre sempre contemplava a lua, Ela falou:
- Agora você vai cantar.
- Mas como? Insistiu.
- Abra a boca, não estou mandando?
O Mestre obedeceu e deslanchou a cantar "Lua
Branca", seu primeiro hino, onde também recordaria a já citada miração.
Na década de 20, o Mestre e os irmãos Costa fundaram um
centro chamado Círculo de Regeneração e Fé (CRF), na cidade de Brasiléia, no
Acre. Reuniram-se naquele lugar algumas pessoas que, apesar de poucas, chegaram
a fundar uma associação.
Mas para desgosto do Mestre, alguns desentendimentos com
Antônio Costa e outros integrantes o fizeram tomar a decisão de ir embora,
deixando aquele centro. Mudou-se para Sena Madureira e depois para Rio Branco,
onde ingressou na Guarda Territorial (sendo aí que conheceu Germano Guilherme,
amigo que o acompanhou por muitos anos). Manteve-se nesta corporação, onde
chegou a cabo, até o começo dos anos 30, quando pediu baixa.
Mais tarde, como tinha feito muitos conhecidos, doaram a ele
uma colônia na Vila Ivonete, bairro rural próximo a Rio Branco. Foi quando o
Mestre deu início aos trabalhos públicos com o Daime, fazendo no dia 26 de maio
de 1930, seu primeiro trabalho. Eram só três pessoas: o Mestre, Zé das Neves e
outro que não se sabe o nome. Zé das Neves conta que trabalhou com ele 41 anos
e 41 dias.
Em sua casa, que também servira de sede dos trabalhos
espirituais, logo reuniu um pequeno grupo. Nele estavam Germano, Maria Marques,
João Pereira, Daniel Pereira e Zé das Neves. Pouco mais tarde também se juntou
a esse grupo Antonio Gomes. Todos estes são expoentes de nossa Doutrina.
Neste tempo nosso Mestre foi perseguido, chegando mesmo a
ser chamado na delegacia, porém nunca sendo preso. Resolveu então adentrar um
pouco mais na floresta e foi nesta época que recebeu uma doação por parte do
ex-governador Guiomar Santos, que lhe arranjou uma colocação chamada Espalhado,
com uma colônia, a Custódio de Freitas. Neste lugar fundou o Centro de
Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU), a igreja sede e levantou também um
cruzeiro de 5m de altura todo em cimento armado.
No Alto Santo abrigou mais de quarenta famílias, que
trabalhavam em sistema de mutirão, muito comum no Acre. Viviam do que
plantavam, conseguindo assim sustentar sua comunidade.
Mestre Irineu era homem de grande carisma. Com sua calma e
paciência atraía inúmeras pessoas a sua volta, que vinham atrás do curador, já
popular em Rio Branco. Encontravam um patriarca de grande coração,
pronto a servir aqueles que precisassem.
Ele mesmo se auto-denominava "árvore-sombra".
Com o tempo foi se tornando uma pessoa muito respeitada na
região. Resolvia casos difíceis com amor e firmeza, pois a disciplina sempre
foi uma bandeira muito importante dentro da Doutrina do Santo Daime.
O Mestre se tornou um grande conselheiro para aquele povo
que o seguia e lhe pedia a benção
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